segunda-feira, 6 de julho de 2009

Honduras: Reinaldo Azevedo x Johann Hari

Como seria uma grande imprensa ao gosto da canalha esquerdista que reclama de seus supostos desvios conservadores (”de direita”, dizem?)? De Noam Chomsky às “filósofas” do USP do calcanhar rachado (há exceções, é claro), todos reclamam da “mídia”. É tática. Enquanto fazem a patrulha, um artigo delinqüente como o que Johann Hari publica hoje no Independent pode ser reproduzido mundo afora como expressão da verdade. A tradução está na Folha de hoje. Há uma página na Internet que reúne artigos seus em português e inglês. Ah, sim: respondo como seria a tal mídia ao gosto dessa gente: igual à soviética nos tempos do império comunista. Igual àquele ridículo Granma, o jornal dos comunistas cubanos. E, nessa hipótese, é certo, Chomsky e aquelas senhoras do calcanhar rachado estariam no poder, decidindo com muito critério e justeza filosófica quem iria para qual campo de trabalho forçado. Volto a Johann Hari.

O fantasma do outro 11 de setembro, muito mais sangrento, voltou a rondar a América Latina. Na manhã de domingo, um batalhão de soldados forçou a entrada no palácio presidencial de Honduras. As tropas cercaram a cama na qual o presidente democraticamente eleito, Manuel Zelaya, dormia e cutucaram o peito dele com metralhadoras. Os soldados ordenaram que o presidente se levantasse e o levaram a um avião militar. Zelaya foi deixado de pijamas em uma pista de pouso na Costa Rica e instruído a não voltar mais a seu país.
O outro 11 de Setembro a que se refere Hari é a deposição de Salvador Allende, no Chile, em 1973. Três coisas: em primeiro lugar, o golpe naquele país não foi mais sangrento do que o 11 de Setembro nos EUA, como veremos. Nesse caso, Hari mente. Em segundo lugar, a comparação é absolutamente descabida, uma cretinice, direi por quê. E há um terceiro aspecto: evocar o 11 de Setembro, nesse contexto, é pura provocação. Hari está entre aqueles que acreditam que não teria havido golpe no Chile não fosse o apoio americano. De fato, ele está dizendo o seguinte: os EUA choram seus mortos, mas respondem por mortes mundo afora. Haria pertence àquela canalha que acredita firmemente que, sem as intervenções americanas ao longo da história, o mundo seria mais justo e pacífico. É… Por que o vagabundo não propõe tal questão à memória de Churchill?

Em Honduras, os generais bloquearam as redes telefônicas, a internet e o funcionamento dos canais internacionais de TV. Ministros do governo foram detidos e espancados. Quem saísse de casa depois das 21h correria o risco de ser abatido a tiros. Tanques e gás lacrimogêneo foram utilizados contra os manifestantes que saíram às ruas.
Isso é parte de um roteiro cinematográfico de golpes na América Latina. Parece que Hari está falando de Cuba. Parece que Hari está falando da Venezuela. Parece que Hari está falando do Equador. Parece que Hari está falando da Bolívia. Parece que Hari está falando da Nicarágua. Mas não. Ele está falando de uma Honduras que ele imagina existir. E que teria existido se Zelaya tivesse logrado seu intento. Porque, afinal, ele seria mais um na fila em que estão os Irmãos Castro, Hugo Chávez, Rafael Correa, Evo Morales e Daniel Ortega, as maiores orelhas jamais exibidas por um regime corrupto.

Para a América Latina, foi uma reprise do 11 de setembro que marca a história da região. Naquele dia, em 1973, no Chile, o presidente socialista Salvador Allende foi forçado a deixar seu gabinete por um bombardeio. Suicidou-se. Foi substituído por um líder que se descrevia como “fascista”, o general Augusto Pinochet, que promoveu o “desaparecimento” de dezenas de milhares de inocentes.
Além de a comparação ser descabida, ele mente. Mente milhares de vezes. Sem a mentira, afinal, como argumentar? Como ele mesmo descreve, Zelaya foi posto num avião e levado embora de Honduras - um erro imperdoável da Justiça, do Congresso , da Promotoria e dos militares: deveria ter sido preso. O golpe no Chile - lá, sim, um golpe - foi muito mais violento. ADEMAIS, MESMO SENDO UM FACINOROSO, O REGIME DE PINOCHET NÃO MATOU “DEZENAS DE MILHARES” DE INOCENTES. O mais empedernido dos inimigos do general vai dizer que os mortos e desaparecidos somam 3 mil pessoas. Três mil não são “dezenas de milhares”.

É CLARO QUE É MUITA GENTE. NÃO DEVERIA TER MORRIDO UMA SÓ PESSOA EM AÇÕES ILEGAIS. Faço uma conta que suja a barra do general, já que esquerdista não conhece nem regra de três e sempre ataca as pessoas por motivos errados. Emprego a população atual dos países. O Chile tem 17 milhões de habitantes, e morreram 3 mil pessoas em razão de confrontos políticos. No Brasil, com 190 milhões, morreram 427 (segundo números atualizados pelas esquerdas). Pinochet era um bandidaço. Se o regime militar brasileiro tivesse matado o que matou o seu governo, as vítimas aqui teriam sido 33.529. Mas o velhote, que deve estar sentado ao lado do capeta no inferno, era uma flor de pessoa na comparação com os Irmãos Castro, responsáveis pela morte de 100 mil em Cuba (17 mil foram fuzilados ou desapareceram nas mãos do regime; os demais morreram afogados tentando fugir do paraíso). Se Pinochet tivesse matado o que matou Fidel, sabem quantos teriam morrido no Chile? Respondo: 149.122 pessoas. Aí grita o esquerdista indecoroso: “AH, QUEM MORREU AFOGADO NÃO CONTA. QUEM MANDOU TENTAR SAIR DAQUELA MARAVILHA SEM AS ORDENS DO MICO MANDANTE”. Ok, faço as contas só com os 17 mil, embora seja indecoroso: se Pinochet tivesse a compulsão homicida de Fidel, em vez de 3 mil, os mortos chilenos teriam sido 25.350 pessoas. Assim, quem entende de dezenas de milhares de mortos são os esquerdistas. Às vezes, eles entendem de centenas de milhões. Não adianta me xingar. É aritmética. Acontece que Hari precisa fraudar as contas para que seu argumento pare em pé.

Ah, sim. Quando Fidel voltar ao inferno, o diabo dará um chega pra lá em Pinochet: “Até que enfim, Mico Mandante! Agora, sim, um homicida de respeito. Respeitado tanto aqui no inferno como na terra”. Adiante com as bobagens de Hari.

A desculpa oficial para assassinar a democracia chilena foi a de que Allende era “comunista”. Não era. Na verdade, foi morto porque estava ameaçando os interesses de grandes corporações americanas e chilenas ao transferir o controle da riqueza e da terra para o povo.
Vigarista! O golpe no Chile teve contornos detestáveis, já disse. Mas Allende era esquerdista, sim; tentou implementar o “socialismo” pela via cartorial, mas fez uma composição com ultra-radicais de esquerda, que se preparavam para a luta armada. Ademais, quem derrubou Allende foi a paralisação da economia, que ele próprio promoveu. E nada disso justifica a violência do golpe de Pinochet. Mas Allende caiu por seus defeitos, não por suas virtudes.

Honduras é um pequeno país na América Central com apenas sete milhões de habitantes, mas iniciou um programa de promoção autônoma da democracia. Em 2005, Zelaya disputou a Presidência prometendo que ajudaria a maioria pobre da população do país. Eleito, elevou o salário mínimo em 60%, decretou que a exploração da mão-de-obra não seria mais aceita e que “os ricos precisam pagar sua parte”.
Mentira! Na primeira fase do governo, esse vagabundo deixou a população pobre chupando o dedo. Mudou o discurso quando se bandeou para o lado de Chávez e seu petróleo barato. E fez o pior. Em vez de se conformar com o regime de liberdades, tentou adaptá-lo à versão bolivariana - que Hari chama de “promoção autônoma da democracia”. A versão bolivariana da democracia é, na verdade, a versão bolivariana da ditadura.

A minúscula elite no topo, que controla 45% da riqueza do país, se horrorizou. Estão acostumados a que Honduras seja dirigida para e por eles. É inevitável que as pessoas que sempre estiveram por cima contra-ataquem para manter seus privilégios. Em 2002, a oligarquia venezuelana conspirou com o governo de George W. Bush para raptar Hugo Chávez. Um levante do povo conduziu-o de volta ao poder. Agora, estão tentando a mesma coisa em Honduras.
Entenderam? Quem fala é uma espécie de porta-voz de Chávez. Regimes de força já se instalaram, com efeito, com a desculpa de que estavam contendo o comunismo. Hoje em dia, a justificativa está no outro extremo: viriam para promover Justiça. Na Venezuela, não houve levante do povo coisa nenhuma. Hari mente de novo. O que houve, sim, é que um setor do Exército não apoiou a deposição e haveria uma grave crise militar. Os que tinham dado um chega-prá-lá no Beiçola recuaram. Ah, sim: o militar que impediu a queda de Chávez é hoje seu adversário e já chegou a ser preso.

A aliança entre militares e empresários inventou uma desculpa que vem sendo repetida por inocentes úteis no mundo ocidental. Os generais alegam que derrubaram Zelaya e detiveram seus ministros para salvar a democracia.
Quem está repetindo? Mundo afora, só se repetem as mentiras que Hari conta em seu artigo.

E eis como isso aconteceu. Honduras conta com uma Constituição redigida em 1982, pela oligarquia, sob a supervisão da ditadura militar que estava se encerrando. O texto dispõe que o presidente só possa servir por um mandato, enquanto as Forças Armadas continuam permanentes e “independentes”, o que garantiria que continuassem a exercer o poder real sobre o país.
Honduras vivia, pois, quase três décadas de estabilidade política - e com crescimento econômico respeitável. Veio uma bandoleiro para fraudar a Constituição. Digamos que tivesse logrado sucesso. Certamente faria o que seus novos aliados da Alba fizeram em seus respectivos países: piorar todos os indicadores econômicos e sociais, sustentado num assistencialismo desastroso.

Zelaya acreditava que isso representasse um obstáculo à democracia e propôs um referendo que determinaria se o povo deseja eleger uma Assembleia Constituinte e criar uma nova Carta. O novo texto reduziria o poder das Forças Armadas e talvez até permitisse que o presidente disputasse a reeleição.
“Talvez”, nesse caso, é coisa de argumentador barato. Permitia. Ponto final. E isso viola alguns artigos da Constituição. E aqui está o ponto central da questão. Este é o método dos bolivarianos: passar por cima do que está escrito e “ouvir o povo”, mobilizando a máquina oficial para que ele responda o que o candidato a tirano quer ouvir. Se o povo não vota como o vagabundo quer, repete-se a consulta, a exemplo do que fez Chávez. Até o resultado ser favorável. Se bem se lembram, no primeiro referendo, governo e oposição na Venezuela fizeram campanha. E o bandoleiro perdeu. No segundo, Chávez falou sozinho e ganhou. Ora, como se impede esse modo de fraudar a democracia? Segundo Hari, não se impede.

A Corte Suprema hondurenha, no entanto, decidiu que era inconstitucional promover um referendo cujo resultado teria aplicação compulsória a menos de um ano da data da nova eleição presidencial. Por isso, Zelaya propôs um referendo cujo resultado não tivesse aplicação compulsória. Os militares, temerosos do veredicto do povo, decidiram intervir.
A Corte Suprema Hondurenha cumpriu o seu papel. Leu a Constituição e disse: “Não pode”. É o que faria uma suprema corte em qualquer lugar do mundo democrático: Brasil, EUA, Grã-Bretanha… Por que em Honduras a Corte Suprema teria de fazer diferente? Quer dizer que, no Terceiro Mundo, dá para fazer coisas que não se fariam no primeiro?

Mas houve progressos com relação aos dias de 1973, ou até mesmo aos de 2002. Os golpes contra Allende e Chávez foram apoiados pela agência de Inteligência dos EUA (CIA) e pela Casa Branca. Mas, desta vez, Barack Obama declarou que “acreditamos que o golpe não tenha sido legal e que Zelaya continua a ser o presidente de Honduras”, chamando o golpe de “um terrível precedente”.
Viram? Para este senhor, quando se condescende com um golpe de esquerda (o de Zelaya), trata-se de um avanço.

A face mais feia da oligarquia latino-americana está agora sozinha contra o mundo, demonstrando seu desprezo pela democracia e pelo povo. Seus líderes lutam por preservar o continente como era no passado, com toda a riqueza destinada a eles, sob a mira das metralhadoras.
Retórica de vagabundo bolivariano. Nada além. Os indicadores sociais da Venezuela e dos países hoje sob a proteção de Chávez - sim, é disso que se trata - só pioraram. A desculpa do combate à concentração de renda é a nova face dos projetos ditatoriais.

Hoje, Zelaya disse que tentaria retornar ao país que o elegeu, para retomar o posto que lhe é devido. Seu sucesso ou fracasso nessa empreitada nos dirá se os filhos das lixeiras têm motivo para esperança e se a fumaça do 11 de setembro mais mortífero já se dispersou.
E o autor volta à tese do “11 de Setembro mais mortífero”. Atenção! A guerra no Afeganistão, seus desdobramentos no Paquistão e, em certa medida, a guerra no Iraque, tudo isso está contido naquele 11 de Setembro de 2001. Ainda que não estivesse, notem: no Chile, foram 3 mil os mortos; nos EUA, 3.278. Nem como piada macabra, o argumento delinqüente se sustenta. Ademais, os episódios de 2001, nos EUA, à diferença dos de 1973, no Chile, tiveram um alcance realmente planetário.

A imprensa que Chomsky e as tias do calcanhar rachado chamam de “reacionária” publica boçalidades mentirosas como a que vai acima. E, é claro, ninguém reclama. Essa gente não vê mal nenhum em mentir. Desde que a mentira lhe seja útil. No regime de um Pinochet, esses caras talvez fossem presos, o que seria detestável. No regime que eles defendem, estariam mandando prender. E achariam que se trata só de uma questão de justiça. Esses caras merecem o nosso desprezo. Mas também o nosso combate.